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Estratégias de inovação

A área de atuação da Direção de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico está relacionada com a valorização de correntes residuais, economia circular e com a criação de valor através do aproveitamento do que já existe nas fábricas da Altri.

Para a Altri é possível criar valor aumentando a capacidade de produção das fábricas, mas que implica o acesso a uma maior quantidade de matéria-prima (eucalipto) para transformar em pasta para papel. Perante esta realidade é necessário fazer uma análise introspetiva às fábricas e perceber como se pode retirar mais valor económico destas unidades, sem impacto no consumo de madeira. 

Essa tem sido a nossa missão: perceber onde mais se pode ‘espremer’, seja no produto final, na valorização de correntes secundárias para a criação de novos produtos, ou na redução de custos variáveis pelo aproveitamento de tecnologias inovadoras.

explica Gabriel Sousa, responsável pela Direção de Inovação Desenvolvimento e Tecnologia (DIDT) da Altri

Com o arranque da DIDT foi necessário identificar e definir prioridades com um conjunto de projetos – -âncora que pudessem mostrar ao grupo as potencialidades e a visão prática desta Direção. O ponto de partida foi a fábrica da Caima. Uma unidade fabril especial dentro do universo Altri. 

Apesar de ter uma dimensão reduzida quando comparada com as restantes unidades fabris do grupo, a Caima utiliza um processo tecnológico de produção à base magnésio, que pela sua natureza química permite produzir coisas que um processo de produção de pasta kraft, como o utilizado pelas unidades fabris da Celbi e da Celtejo, não permite. 

A associação do processo da Caima à madeira de eucalipto, pode gerar a produção de diferentes produtos químicos de base natural. O ácido acético e o furfural são dois químicos de base que resultam do processa – mento da madeira do eucalipto e que existem em condensados da evaporação do processo de produção da Caima, sendo componentes presentes em correntes residuais, e portanto sem valorização económica. 

Como já existia algum trabalho de casa – e bem feito –, da equipa da Caima, testando a possibilidade de retirar estes componentes químicos de uma corrente residual e valorizando-os comercialmente, o projeto mereceu a atenção da Direção de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico (DIDT). 

“Outras pessoas, com o conhecimento e o distanciamento necessário conseguem olhar para ele com novos olhos. O conhecimento atual de maturidade e de desenvolvimento permite-nos, em teoria, decidir se podemos avançar com essa linha ou não”, explica Gabriel Sousa. 

Além do apoio dos colaboradores da Caima, a DIDT chamou a este projeto uma empresa suíça especializada na tecnologia necessária para o seu desenvolvimento. Tal conhecimento foi indispensável para encontrar a melhor forma de recuperar os dois químicos no processo da Caima. Esta equipa de trabalho foi ainda complementada com o apoio da Universidade de Aveiro, que deu apoio nos processos analíticos de medição e caracterização das correntes do processo.

Como parte deste processo de desenvolvimento, Gabriel Sousa explica que é necessário fazer “uma avaliação mais fina, do ponto de vista do modelo económico e dos mercados, para podermos decidir acerca deste projeto, até porque existem outras componentes menos quantificáveis”. 

Por um lado, há uma componente de risco a avaliar, uma vez que se estão a adotar processos associa – dos à indústria química, com os quais a indústria de pasta está pouco familiarizada. Mas, por outro lado, há benefícios que também não são quantificáveis. 

O primeiro é o benefício de integração tecnológica no parque industrial da Caima. Depois o benefício de valorizar uma corrente residual e eventualmente libertar capacidade de produção de pasta da fábrica. 

Modus operandi

O primeiro projeto desenvolvido pela DIDT na Caima serviu também para mostrar a estratégia de atuação nos projetos. Apesar de esta Direção ter uma equipa reduzida, ela multiplica-se alavancando recursos internos de outras áreas da Altri, complementada com o recurso a entidades externas que acrescentaram valor ao projeto. Foi o caso da empresa suíça fornecedora de tecnologia e da Universidade de Aveiro. 

Gabriel Sousa, diretor de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico da Altri
Gabriel Sousa, diretor de Inovação e Desenvolvimento Tecnológico da Altri

“Poderíamos ter uma equipa de 20 pessoas com conhecimentos genéricos na produção de pasta e nos processos industriais sem, eventualmente, alcançar o resultado que agora obtivemos, neste curto espaço de tempo”, diz o nosso interlocutor, defendendo que “um grupo de três ou quatro pessoas, especializadas em tecnologias que não dominamos, aportam conhecimentos que não conseguiríamos ter de outra forma”. 

Para dar suporte de conhecimento a este processo, e no contexto do Sistema de Incentivos à Investigação e Desenvolvimento Tecnológico do Portugal 2020, foi ainda aprovado o projeto “CaimaChem – Investigar e desenvolver novas técnicas de recuperação e valorização de ácido acético e furfural provenientes das correntes de condensados da evaporação do processo produtivo da pasta solúvel” (POCI-01-0247-FEDER-045125), cofinanciado ao abrigo do Sistema de Incentivos à Investigação e Desenvolvimento Tecnológico, no âmbito do COMPETE 2020, Portugal 2020 e Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), da União Europeia. 

Este projeto visa investigar novas técnicas de recuperação e valorização de ácido acético e furfural provenientes das correntes de condensados da evaporação do processo produtivo da pasta solúvel na Caima, de modo a criar novos produtos totalmente alinhados com os princípios da Economia Circular. Este projeto I&D de suporte iniciou-se em Abril de 2019 e durará até Março de 2021.

Valorização de açúcares da madeira é outra área em estudo no grupo Altri 

Outra área que está a ser estudada pelo grupo, é a valorização dos açúcares presentes na madeira de Eucalipto, nomeadamente a xilose e a glucose. A xilose está na base de diversos produtos de elevado valor acrescentado como o xilitol (adoçante natural), furfural (solvente), proteína animal, entre outros.

    A glucose, pelo seu lado, está na base da indústria alimentar e é um dos blocos primárias para a produção de biocombustíveis. Para esta iniciativa, a DIDT tem como objetivo associar-se a Centros Tecnológicos e Empresas de Engenharia com conhecimento específico nestes sectores. Para além disso, sempre que possível, serão utilizadas referências de projetos já implementados a nível global para orientar a atividade de desenvolvimento. Isto permitirá acelerar o conhecimento do grupo Altri em áreas adjacentes ao seu negócio principal de produção de pasta.

    Projeto inovador de economia circular nas fábricas do grupo

    Em estreita colaboração com a Direção Industrial, iniciou-se um projeto para perceber a possibilidade de utilizar correntes residuais de fibra das fábricas do grupo, para a produção de pasta para papel. 

    As correntes residuais de fibra tipicamente não podem ser reincorporadas no processo de produção porque a tecnologia de cozimento que é utilizada não está preparada para material fino. Por este motivo, esse material é separado e enviado para a queima nas caldeiras. Com as restrições existentes no acesso à matéria-prima em Portugal e para tentar reduzir a dependência de importação de madeira, iniciou-se a avaliação da possibilidade de incorporar e aproveitar este material na produção de pasta de papel. 

    O que pretendem descobrir? Que tecnologia pode ser implementada na Celbi, que permita agregar estas correntes residuais do grupo, para produzir uma pasta equivalente à pasta que é produzida? “Estamos a falar de produzir o mesmo produto, não outro produto”, diz Gabriel Sousa. Trata-se de economia circular no grupo e de maximizar o valor criado. 

    “Procuramos não perder nada que tenha valor. Este material está a gerar valor, ao ser transformado em energia elétrica, mas terá valor adicional ao ser redirecionado para a produção de pasta para papel. 

    Utilizar os gases de enxofre para produzir uma matéria-prima

    Outro projeto em análise é a possibilidade de tratar na Celtejo os chamados gases não condensáveis, uma corrente residual do processo kraft, com uma tecnologia alternativa à utilizada atualmente na indústria. 

    Tais gases são ricos em enxofre e outros compostos orgânicos que tipicamente são tratados na caldeira de recuperação para oxidação e produção de energia. 

    A DIDT estudou a possibilidade alternativa de usar essa corrente rica em gases de enxofre e, através de uma tecnologia inovadora, converter o enxofre dos gases em ácido sulfúrico, outro dos químicos utilizados no processo de produção de pasta. 

      Este projeto tem uma dupla vantagem. Por um lado, uma corrente residual é tratada e transformada em matéria-prima, com valor económico. Por outro, todo o processo de transformação produz energia elétrica, dado que o processo geraria ele próprio energia.

      “Neste processo produzimos uma grande quantidade de informação importante sobre a tecnologia utilizada, os casos em que já foi implementada, as dificuldades, os riscos e a avaliação do impacto na fábrica”, refere Gabriel Sousa.