A importância da emergência climática

A importância da emergência climática

No princípio estão as alterações climáticas e há evidências fundamentais, que ajudam a perceber a importância da urgência climática ou emergência climática, disse Júlia Seixas, professora da Faculdade de Ciências e Tecnologia e presidente do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente, na sua comunicação “A Inevitabilidade da neutralidade carbónica”.

A comunidade científica ligada a estes temas sabe que a Gronelândia é atualmente o maior contribuinte para o aumento global do nível do mar, e todos os anos, entre agosto e setembro, perde toneladas de gelo. Um estudo recente sobre a Antártica em que 25 anos de observações de satélite mostram quantidades enormes de massa gelada que derrete para os oceanos, cerca de 4 mil giga toneladas de gelo. A temperatura mais elevada que já registada na Antártica foi de 18º graus Celsius e foi a 16 de fevereiro de 2020.

“Não podemos esquecer que 70% da população mundial vive nas zonas costeiras o que significa que todas essas infraestruturas de energia, telecomunicações, o que usamos e temos para o nosso bem-estar, estão muito perto das zonas costeiras”, afirmou Júlia Seixas. O Fórum Económico Mundial identificou onze cidades que podem desaparecer até 2100 entre as quais se contam Dhaka no Paquistão, Veneza em Itália, Roterdão na Holanda, ou Miami e Nova Orleães nos Estados Unidos.

Cidades em risco

Outra evidência fundamental tem a ver com os incêndios, uma realidade que infelizmente em Portugal conhece. Este ano os incêndios na Austrália foram muito violentos, tendo uma das frentes de fogo atingido os 6 mil quilómetros. Recentemente os incêndios nos Estados Unidos com o estado do Oregon a declarar o Estado de emergência com meio milhão de pessoas a serem evacuadas. Como diz o antigo diretor dos serviços florestais dos Estados Unidos 9 dos 10 maiores incêndios florestais da história da Califórnia ocorreram na última década, apesar dos enormes investimentos em novas tecnologias e equipamentos. “Como é de ver não há capacidade humana para combater este tipo de incêndios”, diz Júlia Seixas.

Antes da revolução Industrial a concentração de CO2 não chegava aos 300 ppm, hoje ultrapassa os 400. “É esta concentração de CO2 que estamos a colocar na atmosfera que altera o balanço energético da atmosfera e por conseguinte toda a dinâmica do sistema climático. Este CO2 que está a crescer na atmosfera vem na esmagadora maioria das emissões de origem humana”, diz Júlia Seixas.

Pelo Acordo de Paris em 2015 houve o compromisso dos países para manter a temperatura global do planeta bem abaixo de 2ºC até ao final do século, comparativamente com a temperatura global média antes da Revolução Industrial e fazer todos os possíveis para ficar mesmo abaixo dos 1,5ºC. “Como é que isto se faz? Faz-se atingindo a neutralidade carbónica”, sublinha Júlia Seixas.

Homem na Lua

Adianta que “quando se fala em neutralidade carbónica as emissões de caráter antropogénicas da atividade humana devem baixar até ao nível que seja quantitativamente equivalente à capacidade do planeta absorver o C02. Quando atingirmos o equilíbrio entre as emissões e as remoções de CO2 dizemos que assumimos a neutralidade carbónica”.

Um dos paradoxos é que os Estados acordaram e ratificaram no Acordo de Paris mas continuam a subsidiar fortemente os combustíveis fósseis, como mostra um estudo do FMI de maio de 2019. Em 2015 estes subsídios atingiam os 4,7 biliões de dólares (6,3% do PIB global) e em 2017 aumentou para 5,2 biliões de dólares (6,5% do PIB global) e os maiores subsidiadores em 2015 eram a China, os Estados Unidos, a Rússia, a União europeia e a Índia.

O que está em causa é o que Ursula Von der Leyen afirmou quando apresentou o pacto ecológico europeu e que é o “nosso momento de Homem na Lua”, querendo com isto dizer duas coisas. É uma ambição gigantesca, transformar o sistema económico como o conhecemos hoje sem perder competitividade, transformar o modelo de consumo atual sem perder qualidade de vida razoáveis, mas é um desígnio que temos de atingir. Temos mesmo de ir à Lua no caso da neutralidade carbónica”, concluiu Júlia Seixas.