Além da Pegada de Carbono

Além da Pegada de Carbono

A sustentabilidade entrou no dia-a-dia dos países, das empresas e de todos nós, principalmente desde o Acordo de Paris. Para cumprimento das metas mundiais de Neutralidade Carbónica por parte de cada país, é fundamental que todas as organizações se envolvam. Por isso, a redução da sua Pegada de Carbono (emissões de GEE) passou a fazer parte da estratégia da grande maioria das empresas. Mas, para isso, o primeiro passo é saber qual é a sua pegada.

Maria João Gaspar, consultora em Sustentabilidade, conta-nos que “há duas metodologias internacionalmente reconhecidas – o GHG Protocol e a norma ISO 14067 – para calcular a Pegada de Carbono”.

O GHG Protocol, que é o mais utilizado, estabelece estruturas padronizadas globais e abrangentes para medir e gerir as emissões de GEE de operações dos setores público e privado, cadeias de valor e ações de mitigação.

Com base numa parceria de 20 anos entre o World Resources Institute (WRI) e o Conselho Empresarial Mundial para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD), o GHG Protocol trabalha com governos, associações industriais, ONGs, empresas e outras organizações.

Há duas metodologias internacionalmente reconhecidas – o GHG Protocol e a norma ISO 14067 para calcular a Pegada de Carbono.

Na prática este protocolo e a norma ISO fornecem ferramentas de transformar os consumos (energéticos e outros) em emissões de CO2. Maria João Gaspar

A consultora afirma que “na prática este protocolo e a norma ISO fornecem ferramentas para transformar os consumos (energéticos e outros) em emissões de CO2”, salientando que “a dificuldade maior está na recolha da informação que alimenta a aplicação dessa metodologia, para se poder transformar dados operacionais em emissões”. Principalmente, frisa Maria João Gaspar, porque a organização não detém nem controla os dados que é preciso recolher a montante (fornecedores) e jusante (utilizadores do produto ou serviço) tendo, assim, que envolver, por vezes, um grande número de terceiros.

Tiago Rogado, CEO da consultora Caravela Sustentável, adianta que “a recolha de informação pode demorar cinco a seis meses”.

Só depois do cálculo da Pegada de Carbono a organização pode então definir que medidas terá de tomar para compensar essas emissões e qual o horizonte temporal em que o poderá fazer para chegar à neutralidade carbónica.

Pegada Ecológica: o novo objetivo

O CEO da Caravela Sustentável, empresa que fez parte do programa europeu PEFMED (Ferramenta de Pegada Ecológica do Produto), ao nível das indústrias agroalimentar e de alimentos compostos para animais, considera que embora o cálculo da Pegada de Carbono seja fundamental, “o caminho terá de ser no sentido da Pegada Ecológica que permite calcular o impacto global de determinado produto ou atividade no Planeta”, incluindo a Pegada Hídrica (ISO 14046), ocupação do solo, perda de biodiversidade, produção de resíduos, etc.

A Pegada Ecológica é um paradigma para mudar a gestão estratégica da própria organização.

É necessária uma matriz que inclui 17 Indicadores ambientais (análise por ingrediente/matéria prima), dez indicadores ambientais (por etapa de processo) e 14 indicadores socioeconómicos, que permitem quantificar o impacto real de cada produto. Tiago Rogado

O responsável salienta que após a fase piloto do PEFMED, a União Europeia já publicou diretrizes para o cálculo da Pegada Ecológica dos produtos – Recomendação de 9 de abril de 2013 para a utilização de métodos comuns para a medição e comunicação do desempenho ambiental ao longo do ciclo de vida de produtos e organizações – e que têm vindo já a ser adaptadas por vários setores específicos. Há, assim, já várias guidelines europeias para o cálculo da pegada em todo o ciclo de vida de vários produtos como os laticínios, o vinho, o azeite, a água engarrafada, entre outros (para enumerar apenas alguns exemplos do setor agroalimentar).

Tiago Rogado salienta que, depois da recente apresentação do Pacto Ecológico Europeu, que inclui as Estratégias para Biodiversidade e do Prado ao Prato, “a UE está a preparar o caminho para avançar com diretivas e metas ao nível da Pegada Ecológica que os países, empresa e cidadãos terão de cumprir”.

Economia Circular é o caminho

Maria João Gaspar considera, por seu lado, que o cálculo da Pegada Ecológica, per si, poderá não ser necessário, defendendo que “o caminho passará pela aposta das empresas na Economia Circular” que, na prática, envolve todos os conceitos da Pegada Ecológica.

A consultora refere que “ainda não existe uma metodologia universalmente aceite para quantificar o nível de circularidade de uma organização”, mas, adianta: “em 2019 foram publicadas duas metodologias pela Elle MacArthur Foundation e pelo WBCSD – Ellen MacArthur Foundation Circulytics e WBCSD Circular Transition Indicators V1.0. São metodologias que ainda estão numa fase inicial”, mas que já permitem às organizações calcular o seu estágio de circularidade e avançar para medidas para tornar as suas operações completamente circulares, reduzindo a sua Pegada Ecológica.

Medir todo o impacto de um produto

No âmbito do trabalho realizado no Programa PEFMED, Tiago Rogado concluiu que “para analisar o ciclo de vida de um produto é necessária uma matriz que inclui 17 Indicadores ambientais (análise por ingrediente / matéria prima), dez indicadores ambientais (por etapa de processo) e 14 indicadores socioeconómicos, que permitem quantificar o impacto real de cada produto”.

Assim, o responsável considera que as empresas se devem preparar, defendendo que têm muitas vantagens em avançar com o cálculo da sua Pegada Ecológica: eficiência na gestão de recursos internos e externos e poupanças económicas; cumprimento de requisitos legais e normativos aplicáveis para a implementação e certificação de Sistemas de Gestão Ambiental; maior captação de clientes sensíveis às questões de sustentabilidade; avaliação de fornecedores considerando novos critérios de sustentabilidade; avaliação de todo o ciclo de vida de produtos baseada em indicadores europeus; avaliação das condições socioeconómicas inerentes à comercialização do produto; mandatório envolvimento das partes interessadas no conhecimento da pegada ecológica; potencial instrumento/ferramenta de apoio para a obtenção de apoios/subsídios.

Tudo isto, sempre tendo em mente que “a Pegada Ecológica é um paradigma para mudar a gestão estratégica da própria organização”, conclui Tiago Rogado.

Estudo 80% das empresas reportam sobre sustentabilidade
A KPMG lançou recentemente a 11ª edição do seu estudo anual sobre a comunicação de Sustentabilidade, por parte das 100 maiores empresas de 52 países, sob o título “The Time Has Come”. E o reporte sobre metas para reduzir as suas emissões de carbono é avançado por cerca de dois terços (65%) das empresas que relatam sobre Sustentabilidade.

A pesquisa da KPMG conclui que 80% das maiores empresas do mundo já reportam sobre sustentabilidade, mas os autores salientam que ainda há muito caminho a percorrer, nomeadamente para travar a perda de biodiversidade.

Richard Threlfall, responsável pela KPMG IMPACT – uma iniciativa que reúne profissionais da KPMG em todo o mundo para abordar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU (ODS) sublinha que “as empresas têm a responsabilidade de ajudar a resolver a crise de perda de biodiversidade, e um primeiro passo para fazer isso é reconhecer que suas cadeias de abastecimento são altamente dependentes da natureza e dos serviços dos ecossistemas. É fundamental que todas as empresas divulguem os riscos que a perda de biodiversidade representa para elas, bem como o impacto que têm sobre os ecossistemas. O nosso estudo sugere que a maioria das empresas tem um longo caminho a percorrer quando se trata de fornecer um quadro completo dos riscos comerciais decorrentes da perda de biodiversidade”.

A perda de biodiversidade é um dos indicadores da Pegada Ecológica e que também tem de ser considerado numa lógica de Economia Circular.

No estudo, a KPMG salienta ainda que a América do Norte tem a maior taxa de relatórios regionais – 90% das empresas norte-americanas relatam sobre sustentabilidade. Mais de dois terços (69%) destas empresas relacionam as suas atividades comerciais com os ODS nos seus relatórios corporativos, mas poucas (14%) divulgam como contribuem para os problemas globais que os ODS procuram resolver. Os que são prioritários para as empresas em todo o mundo são o ODS 8 – Trabalho Condigno e Crescimento Económico, ODS 13 – Ação Climática e ODS 12 – Consumo e Produção Responsáveis.