Emissões zero a “custo zero”? McKinsey diz que é possível

Emissões zero a “custo zero”? McKinsey diz que é possível

Reduzir as emissões de carbono em mais de 55% até 2030 - comparando com os níveis de 1990 - e chegar a zero emissões em 2050. O primeiro compromisso foi acordado pela União Europeia na semana passada, durante a última cimeira de líderes dos 27. O segundo foi assumido em 2019. A consultora McKinsey diz que não só é possível atingir estas metas como podem ser conseguidas sem que o esforço se reflita negativamente no custo de vida dos europeus.

De acordo com a consultora, a ação terá de se centrar nos cinco setores que mais contribuem para a poluição atmosférica nos países do bloco: os transportes (28%), a indústria (26%), a energia (23%) e finalmente o imobiliário e a agricultura, empatados nos 13%. Entre os vários setores, contudo, há um responsável comum: a combustão de energias fósseis, na qual tem origem 80% do total de emissões, e que é transversal a várias atividades.

45Eletrificação
A eletrificação deverá ter a maior contribuição para descarbonizar o setor da energia: vai reduzir as emissões em 45% até 2045. 

Cada um destes setores tem uma capacidade diferente de atingir as emissões zero, sendo que o da energia é o que está mais bem posicionado. A McKinsey diz que até 2045 será possível não emitir carbono com a produção de energia, uma vez que as eólicas e o solar já estarão disponíveis em larga escala. A eletrificação contribuirá para a maior redução, de 45%, deixando a cargo de outras fontes, como o hidrogénio e a biomassa, um alívio de 30%. O carvão deverá ficar para trás logo em 2030, enquanto o consumo de petróleo e gás encolhe para menos de 10% até 2050. Ao mesmo tempo, a UE tem de aproveitar para triplicar as interconexões entre as suas redes de energia até à próxima década e aumentar a capacidade de armazenamento.

Sensivelmente pela mesma altura, será a vez de os transportes atingirem as metas. Os veículos elétricos deverão demorar cerca de 10 anos a organizarem as cadeias de distribuição necessárias. Já no caso dos barcos e aviões, os consultores apontam para hipóteses “mais caras”, como combustíveis biológicos ou amónia.

Segue-se o imobiliário, já perto de 2050. Existe a tecnologia necessária mas é uma mudança muito difícil pelas dimensões do setor. O abastecimento a gás nas casas terá de decrescer para menos de metade e o recurso a energias renováveis para aquecer os lares tem de subir dos atuais 35% para 100%.

12Floresta
Uma vez que nem todos os setores chegam às emissões zero, são necessários 12 milhões de hectares de floresta para chegar à neutralidade. 

Resta o setor “mais caro de descarbonizar” – a indústria – e o “mais difícil de descarbonizar”: a agricultura. Ambos só conseguiriam chegar às zero emissões em 2050 e com uma ajuda: teriam de compensar aquelas que não conseguissem cortar. É necessário reflorestar 12 milhões de hectares para contrabalançar. No caso da indústria, o atraso no desenvolvimento de tecnologia que permita a transição prejudica, enquanto na agricultura o problema são os hábitos de consumo da população.

Classes mais baixas a ganhar

Segundo a McKinsey, esta transformação pode ser feita sem agravar o custo de vida das famílias, com subida do preço de alguns serviços a ser compensada pela descida de outros.

Numa União Europeia neutra em carbono, o custo de vida para a média dos agregados familiares não se deverá alterar. No caso dos lares de menores rendimentos pode mesmo vir a assistir-se a um alívio ligeiro nos custos.

5Emprego
A transição energética deverá criar 5 milhões de empregos, uma vez que elimina 6 milhões mas traz 11 milhões de novas oportunidades. 

Espera-se que a mobilidade se torne mais acessível neste mundo mais verde, tal como as contas da energia que é usada para controlar a temperatura das casas. Em oposição, o custo dos alimentos e dos voos devem aumentar.

No que toca ao mercado de trabalho, esperam-se tanto perdas como ganhos, mas o saldo final é positivo: deverão surgir 5 milhões de novos empregos em termos líquidos, com a transição a valer a criação de 11 milhões ao mesmo tempo que elimina 6 milhões dos já existentes. As necessidades vão alargar-se sobretudo no segmento das energias renováveis (1,54 milhões), mas também no da agricultura (1,13 milhões) e finalmente no imobiliário (1,1 milhões).

Chegar a zero emissões exige 38 biliões  A vida não tem de encarecer para atingir a meta das zero emissões, mas são necessárias dezenas de biliões em investimento: cerca de 28 biliões de euros nos próximos 30 anos, estima a McKinsey.

A maioria deste bolo, isto é, 23 biliões, deverá ser redirecionada de outras atividades, mais intensivas em carbono. Este número representa 25% do montante que é anualmente investido no Velho Continente nos dias de hoje.

Fora esta quantia, ficam a faltar 5,4 biliões, a ser entregues pelos vários “stakeholders”. 1,8 biliões caberão ao setor energético, ou seja, 33% do total, e 1,5 biliões terão como destino o setor imobiliário (29%). A indústria pede 410 mil milhões de euros e a agricultura apenas 1%, ou 76 mil milhões. Os transportes requerem o menor investimento, de 32 mil milhões.

Para atingir estes valores, contudo, serão necessárias intervenções como a taxação do carbono e apoios governamentais, sendo que estes últimos podem ascender aos 4,9 biliões de euros até 2050, estima a mesma consultora.

Apesar das quantias avultadas que são requeridas, entre 2021 e 2050 a União Europeia pouparia 130 mil milhões anuais em custos operacionais, com o setor dos transportes a concentrar em si o maior potencial de poupança.

Nesta lógica, o sucesso na descarbonização será possível e a União Europeia poderá servir de exemplo para o resto do mundo ao mover-se decididamente no sentido das zero emissões. Contudo, as emissões do Velho Continente são responsáveis por apenas 7% das emissões a nível global, pelo que o trunfo é mesmo a influência nas restantes potências.