Alfredo Cunhal Sendim: “No Freixo do Meio partilhamos as colheitas com 180 famílias”

Alfredo Cunhal Sendim: “No Freixo do Meio partilhamos as colheitas com 180 famílias”

Desde 1990 que Alfredo Cunhal Sendim elegeu a agroecologia para gerir a Herdade do Freixo do Meio (hoje Montado do Freixo do Meio), uma herdade tipicamente alentejana, com o desafio de a gerir como um bem comum, regressando ao agroecossistema medieval do Montado, como forma de abordar o presente e de construir o futuro.

A herdade tem 600ha, totalmente em produção biológica, que estão divididos em montado clássico (450ha), conservação (50ha) e área de experiências no campo do montado (100ha). “Temos dois conceitos: uma atividade empresarial agrícola sustentável, uma empresa que está no mercado, que é o que nos dá a possibilidade de avançar para o segundo conceito o de experimentar novos modelos e novos caminhos”, explica ao Negócios Alfredo Cunhal Sendim, o líder deste projeto, que detém, em conjunto com os filhos, a Sociedade Agrícola do Freixo do Meio – detentora da terra “que produz o bem comum que partilhamos”.

As experiências são a dois níveis: abordagens técnicas das culturas e do montado, com base na agroecologia, mas também no campo social. “Não conseguimos resolver a abordagem com o ecossistema, com a Natureza, com o Planeta sem resolver também a questão da forma como se distribui os alimentos, como as pessoas participam nisso tudo”, afirma Alfredo Cunhal Sendim, adiantando: “São portanto duas áreas diferentes mas que acabam por ser a mesma, porque estamos a falar de uma gestão coletiva, através de uma cooperativa de usuários e de um programa CSA”, ou seja: Community Supported Agriculture (agricultura suportada pela comunidade, onde há partilha de colheitas com os coprodutores – os consumidores.

Regenerar os recursos

Há três grandes abordagens agrícolas: a que destrói recursos, a que conserva recursos e a que regenera recursos. “Temos as três mas o menos possível da primeira, tentamos construir a nossa economia com base numa agricultura de conservação/regeneração, mas temos um foco muito grande nos 100ha onde estamos a fazer experiências com várias técnicas, que já deram resultados noutros locais e sempre numa lógica de regeneração”.

O projeto do Montado do Freixo do Meio está dividido em três áreas: partilha do alimento, partilha da paisagem (agro e ecoturismo) e partilha do conhecimento. “Na partilha do alimento e da paisagem é que nós vamos buscar a nossa economia”, salienta Alfredo Cunhal Sendim, acrescentando que a produção está organizada em quatro grandes áreas: horticultura, produção animal, agrofloresta (frutos, produção florestal) e montado (cortiça, bolota).

Grande parte da produção alimentar é transformada na própria herdade em sete microfábricas (ver caixa), aumentando assim o número de colaboradores, para 35 pessoas (que o responsável salienta ser 20 vezes mais do que a média na região) e dando mais valor acrescentado aos produtos.

A cooperativa de usuários faz a gestão de toda a parte produtiva da herdade, sendo os alimentos distribuídos pelas 180 famílias do Programa CSA Partilhar as Colheitas (que têm um compromisso de seis meses), mas também numa loja online, e por duas lojas, uma na herdade e outra no Mercado da Ribeira em Lisboa, além de serem vendidos para restaurantes e para a distribuição.

“À Sociedade Agrícola do Freixo do Meio cabe a responsabilidade das ações de conservação/regeneração”, sublinha Alfredo Cunhal Sendim.

No âmbito do turismo, “a que nós chamamos partilha da paisagem”, a oferta da herdade inclui serviços turístico-didáticos cujo objetivo principal passa pela sensibilização para a sustentabilidade, segundo os princípios da agroecologia.

Melhorar a relação com os recursos

No dia-a-dia, o projeto do Montado de Freixo do Meio tenta melhorar a sua relação com os recursos: água, solo, biodiversidade, energia, ciência e cultura, apostando na eficiência real dos processos e na utilização de recursos naturais, assim como na redução de resíduos e da pegada ecológica.

Desde 2017, que a herdade é uma aldeia solar, produzindo mais de 50% da energia elétrica consumida.

Alfredo Cunham Sendim adianta que o Freixo do Meio contribui para o desenvolvimento da freguesia de Foros de Vale Figueira, em Montemor-o-Novo, integrando também na herdade projetos autónomos e complementares sob a forma de microempresas. No âmbito da partilha de conhecimento, a investigação e experimentação e levada a cabo em parceria com universidades portuguesas e estrangeiras e há sempre visitas de muitas associações ligadas à agroecologia e de outros produtores agrícolas, mas também workshops, ações de formação, eventos temáticos e acampamentos pedagógicos.

“Estamos a transformar toda esta herdade num conceito de Parque Natural do Montado, pelo que apresentámos uma candidatura ao ICNF [Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas] para sermos a segunda área protegida privada em Portugal – a primeira é a Faia Brava, desde há dez anos -, que se irá chamar Área Protegida do Montado do Freixo do Meio”, adianta Alfredo Cunham Sendim. Raio-X
As características do projeto

O Montado do Freixo do Meio apresentou uma candidatura ao Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas para passar a ser Área Protegida, num conceito de Parque Natural privado.

O Montado do Freixo do Meio tem uma área de 600 hectares, assim dividida: montado (450 ha); conservação (50 ha); experimentação (100 ha).

A Sociedade Agrícola do Freixo do Meio detém propriedade e cuida da regeneração do ecossistema.

A Cooperativa de Usuários do Freixo Meio tem 180 famílias (incluindo 35 colaboradores) e gere o bem (produtos) desse ecossistema.

Produz carnes de vitela, porco e borrego, frango, ovos, alimentos à base de bolota, hortícolas, frutos, cereais, leguminosas, aromáticas, pão, sopas, pré-cozinhados, azeite, vinho, sumo e vinagres.

Tem como infraestruturas um restaurante/cantina, café-esplanada, diversos alojamentos para ecoturismo, eco-camping e lavandaria comum.