Admirável mundo sustentável

Admirável mundo sustentável

Não estranhe quando, em breve, encontrar, no teste de adequação ao seu perfil de investidor, uma pergunta sobre se está disposto, ou não, a investir em fundos sustentáveis. Em inglês, a sigla usada para este produtos financeiros, com responsabilidade no mundo ambiental, social e de gestão empresarial, é ESG e significa "environmental, social and governance". Os critérios ESG surgiram na sequência de um desafio lançado pelo antigo diretor-geral das Nações Unidas, em 2005, a um grupo de líderes da comunidade internacional ligado ao setor financeiro, para contribuírem para um mundo melhor, tornando os mercados mais sustentáveis e proporcionando retornos a longo prazo. Rapidamente, o acrónimo tornou-se familiar nos meios de comunicação e nas redes sociais. Afinal, as vendas de muitas marcas dependem da sua reputação junto do consumidor. Sendo uma das áreas nos fundos de investimento a registar maior crescimento, o valor dos ativos de investimento sustentável sob gestão cresceu, entre 2006 e 2019, de 6,5 biliões para 82 biliões de dólares em todo o mundo. Estamos a falar de um crescimento de 89% ao ano. Segundo um estudo realizado pelo banco UBS a 5300 investidores, 82% dos inquiridos assumem que o cumprimento deste tipo de critérios pelas empresas representa uma melhor gestão e uma estratégia mais alinhada com o futuro. De facto, o objetivo do investimento nos fundos sustentáveis é criar um ciclo virtuoso, alocando capital a empresas que criem maiores retornos sociais, tanto nos negócios, como já é habitual, como na melhoria do bem-estar de clientes, empregados, fornecedores e sociedade em geral. É suposto gerar frutos no presente e mais crescimento e oportunidades no futuro.

Em que consiste o ESG

O E, de ambiente (“environment”, em inglês), é apenas um de três pilares com ramificações. Inclui temas como o uso de recursos, emissões de gases, desperdícios e inovação do produto. No segundo pilar, o S, estão, por exemplo, o capital humano e os direitos humanos, bem como a privacidade dos dados pessoais. Por último, o G abrange questões como a composição e a remuneração das administrações das empresas, os direitos dos acionistas e a estratégia ao nível social. No total, chegam a ser usados 450 critérios em determinadas metodologias (exemplo da Refinitiv). Percebe-se, pela abrangência dos temas em cada pilar, que este tipo de investimento visa, acima de tudo, escrutinar a forma como cada empresa influencia o setor a que pertence, bem como o mundo ao seu redor, e de que forma o faz. A adoção de critérios, além dos meramente contabilísticos e da estratégia empresarial, torna o investimento mais informado. No limite, até aproxima empresas e pessoas em objetivos comuns. Não há, contudo, bela sem senão. A atribuição de pontuações ESG, atualmente na moda, pode levar os investidores a deixarem de considerar os critérios fundamentais mais tradicionais. Um caminho errado. Se pretende aplicar em fundos de investimento ou em ETF sustentáveis (transacionados em bolsa), dispõe de muitos produtos ESG, mas também encontra soluções que abordam a sustentabilidade sob outras perspetivas. Fundos socialmente responsáveis, de impacto e éticos podem fazer parte da oferta neste novo mundo. É caso para perguntar: o que os define e diferencia?

Sustentável é mais rentável

Do ponto de vista do investidor, é também legítimo questionar: o “sustentável” tem sido uma opção mais rentável? Até que ponto estas políticas de investimento permitem uma consciência mais tranquila quanto ao futuro do planeta? Na edição 1126 da Proteste Investe, mostrámos que o investimento num índice global sustentável vs. um índice global tradicional tem proporcionado maior rentabilidade, nos últimos cinco anos. Apesar dos regulamentos internacionais tornarem cada vez mais homogéneos os critérios de análise, é importante saber no que investe e perceber o porquê desta valorização. A oferta é vasta. Pode ser confrontado com mais de mil fundos que têm no nome termos como sustentabilidade, climático, ético, impacto ou responsável.

Estratégias à lupa

Os critérios de sustentabilidade podem, na prática, ser incorporados em todas as categorias de fundos, mas, nesta análise, focamo-nos apenas nos fundos que investem em ações ao nível global. Garantem não só uma maior diversificação regional, como também cambial e setorial. Tal como mostram os índices na página seguinte, em termos de rentabilidade, é interessante investir na sustentabilidade segundo uma perspetiva global e no âmbito de uma carteira diversificada, mas há que esmiuçar os produtos. Não basta olhar para a sua designação. Atualmente, dos 17 fundos de ações globais sustentáveis, no quadro integrado, quatro seguem estratégias viradas para o clima, outros quatro visam o cumprimento dos critérios ESG, enquanto três estão focados na responsabilidade social e outros três têm uma perspetiva mais sustentável. Dois optaram por uma estratégia ecológica e outro tem uma visão ambiental. Um leque tão variado de termos sustentáveis na designação deixa qualquer um confuso quanto à escolha destes fundos de ações globais. Vamos a um exemplo: no quadro, temos, aparentemente, dois produtos com a mesma temática e políticas de investimento próximas – NN Global Sustainable Equity X, que cresceu 23,61% no último ano, e UBS Equity Global Sustainable P, com uma rentabilidade de apenas 4,33 por cento. Apesar de terem na composição da carteira três empresas coincidentes no seu top cinco, o fundo NN segue uma estratégia de crescimento (growth), ou seja, aposta em empresas que registaram um melhor desempenho bolsista. Tem ainda uma exposição ao mercado americano de 68 por cento. Por sua vez, o fundo da UBS apresenta uma política core que privilegia empresas com indicadores mais estáveis, e está menos exposto a empresas norte-americanas (52%), figurando o mercado japonês em segundo lugar (10%) e o Reino Unido em terceiro (8 por cento). Apesar de serem interessantes do ponto de vista de uma carteira diversificada, estes dois mercados tiveram, nos últimos meses, um impacto negativo na performance do fundo da UBS, justificando o pior desempenho. O mesmo aconteceu aos fundos ESG, entre fevereiro e julho, ao registarem uma performance inferior à dos restantes da categoria sustentável. O foco numa estratégia mais core pode ser um dos motivos. Ao invés, os fundos com maior peso do setor tecnológico foram claramente beneficiados no período mais recente. A exposição a algumas empresas suspeitas de não terem comportamentos legítimos nos pilares S e G e de pouco contribuírem para o pilar E tem, contudo, originado algumas críticas. É o caso do Facebook, acusado do uso abusivo de dados dos utilizadores. Mas, na verdade, sem a exposição a determinadas grandes empresas, os fundos passariam ao lado dos ganhos e não despertariam o interesse de grande parte dos investidores, menos puristas ao nível sustentável, e que a pandemia trouxe mais à tona. Ainda assim, é possível fugir a estas críticas e ser sustentável, sem perder rentabilidade. O fundo Schroder Global Climate Change Equity B tem apenas uma exposição de 6% à Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft, as GAFAM, contra 15 a 20% de outros fundos desta categoria, e recebeu uma avaliação de 69 na categoria das ações globais.


Fundos eleitos

O investimento em fundos ESG é um passo na direção certa, mas não fará mudar o mundo. Não se cinja, porém, apenas ao nome. É importante a diversificação geográfica e setorial. Encontra informação mais detalhada para cada fundo no site. Tendo por base a nossa metodologia, recomendamos o investimento como complemento à sua carteira. Nesse sentido, o ETF UBS MSCI World Socially Resp UCITS (USD) Ad (ISIN: LU0629459743) é a melhor opção, dado ter a melhor avaliação (92). Se pretender subscrever um fundo gerido pela gestora e não tiver uma conta de títulos para negociar em bolsa, a escolha recai sobre o BMO Responsible Global Equity A (ISIN: LU0234759529), mas a avaliação é inferior (79). Embora com ponderações diferentes, estes dois fundos têm mais de 75% (no caso do BMO Responsible, 90%) da respetiva carteira repartida pelos mesmos setores: tecnologia, indústria, saúde, finanças e consumo discricionário.