As duas faces do investimento verde

As duas faces do investimento verde

No início, como refere Catarina Ferreira da Silva, head of Sustainable Finance Markets Portugal do BNP Paribas CIB, eram sobretudo os produtos dedicados ao financiamento de projetos, “chamados pelo mercado ‘uses of proceeds’, que financia projetos, como por exemplo, a central fotovoltaica, a estação de tratamento de água de uma indústria, mas também projetos sociais, como o financiamento de um hospital ou até a formação de trabalhadores, agora para o ‘reskilling’ para as novas necessidades que temos na sociedade atual”.

Estes produtos podem revestir-se tanto em obrigações como empréstimos, “portanto temos aqui um conjunto de produtos que são os ‘green bonds’, os ‘social bonds’, ‘sustainability’ e também na parte dos ‘loans’, realmente tem esta dedicação no sentido de sabermos como é que o dinheiro vai ser utilizado”, refere Catarina Ferreira da Silva.

“Inicialmente eram mais setores ligados às ‘utilities’, porque mais facilmente tinham ‘uses of proceeds’ para justificar esses financiamentos, atualmente há muitos mais setores a entrar para o mercado. Tomando o mercado de financiamentos sustentáveis como um todo, as ‘utilities’ representam cerca de 35% agora, os serviços 24%, e o imobiliário com 16%”, assinalou Francisco Moreira, head of Corporate Coverage, do BNP Paribas CIB Portugal.

20 operações em três anos

Francisco Moreira referiu que Portugal, apesar de ser um mercado recente, nasceu em 2018 para financiamentos sustentáveis com o primeiro “green bond”. Nessa altura “era uma situação em que tínhamos um ‘uses of proceeds’ bem identificado e era uma ‘utility’, mas entretanto no mercado português já houve operações, não só de ‘utilities’, mas também no setor do turismo, hotelaria, florestal, enfim, de vários setores, o que mostra como diferentes empresas estão realmente à procura destas soluções”, afirma Francisco Moreira. Portugal é um mercado de pequena dimensão e teve desde então cerca de 20 operações em três anos.

Depois, existe uma segunda gama de produtos que são operações convencionais, mas ligadas a fatores como o ambiental, social e de governança, os critérios ESG, em que basicamente anualmente as empresas têm de definir objetivos, como, por exemplo, melhorar emissões de carbono ou o número de mulheres no senior management. Como revelou Francisco Moreira, “em Portugal, já houve uma operação ligada, por exemplo, a critérios de equidade e de igualdade de género”. O conjunto de indicadores e de objetivos é definido anualmente entre a empresa e a banca; quando são atingidos, as empresas têm um desconto na sua margem.

“É um instrumento muito atrativo, com benefícios financeiros. Se não forem atingidos os objetivos, acabam por ter uma desvantagem no preço, ou seja, é um instrumento muito concreto no incentivo ou na penalização de quem cumpre efetivamente estes objetivos de sustentabilidade”, sustenta Catarina Ferreira da Silva.

É um instrumento muito atrativo, com benefícios financeiros, se não forem atingidos os objetivos. catarina ferreira da silva
Head of Sustainable Finance Markets Portugal do BNP Paribas